
Edição #045
Tem um padrão que se repete em quase toda escola de música que existe no Brasil.
Começa com um professor particular bom. Alunos indicam outros alunos. A lista cresce. Chega um ponto onde não dá mais para atender todo mundo sozinho.
Aí vem um segundo professor. Depois um terceiro.
De repente, tem uma escola.
Só que tem um detalhe. Você ainda está dando aula.
E enquanto você está na sala com o seu aluno de violão…
→ Tem outro esperando na recepção sem ninguém para atender.
→ Tem uma mensalidade vencida que ninguém cobrou.
→ Tem um professor novo que não sabe o que fazer quando o aluno falta.
→ Tem uma campanha de matrícula que nunca saiu do papel.
Tudo porque você estava dando aula.
Esse é o ponto onde a maioria das escolas trava.
Não é falta de aluno. Não é falta de professor. Não é falta de espaço.
É que o dono da escola ainda não virou dono da escola.
Ele ainda é professor. Só que agora com mais responsabilidade, mais gente dependendo dele e menos tempo para pensar em qualquer coisa.
E aqui não tem julgamento. Faz sentido chegar até aqui assim. É como a escola nasce. O problema é quando ela cresce… e você não muda junto com ela.
A resposta óbvia (e o motivo pelo qual ela trava)
“Para de dar aula.”
Simples assim. Mas não é.
Tem dois lados nessa conta que a maioria das pessoas ignora.
O primeiro é financeiro.
Se você repassa seus alunos para outro professor hoje, esse professor precisa receber por isso.
Ou seja, o dinheiro que entrava no seu bolso agora vai para ele. E a escola precisa ser grande o suficiente para sustentar um gestor que não gera aula diretamente.
O segundo é de cabeça.
Dar aula é o que você sempre fez. É o que você gosta. É onde você se sente competente e útil. Virar administrador às vezes parece um passo para trás, não para frente.
Mas é exatamente o contrário.
Como fazer essa transição sem quebrar a escola
A chave é não fazer tudo de uma vez.
Primeiro: pare de aceitar alunos novos para você. Todo aluno novo que chegar vai direto para um dos seus professores. Você ainda atende os seus, mas para de crescer a sua agenda.
Segundo: uma vez por mês, transfira um aluno seu para outro professor. Um por mês. É gradual, é seguro, e dá tempo de ajustar.
Terceiro: conforme você vai reduzindo aulas, vai aumentando seu pró-labore para compensar. A escola vai crescer exatamente porque você passou a ter tempo para cuidar dela (e esse crescimento sustenta esse ajuste).
Um ponto importante aqui: a remuneração dos professores precisa estar calibrada corretamente.
Depois de acompanhar mais de 1.200 escolas, vimos que o valor repassado ao professor deve ficar em torno de 35% a 40% do que o aluno paga. Acima disso, a margem da escola começa a não fechar (e aí a transição fica ainda mais difícil).
Isso não significa que você nunca mais vai dar aula
Conheço donos de escolas grandes (300, 350 alunos) que ainda dão algumas aulas hoje. Por amor. Porque é o que os conecta com o dia a dia da escola.
Mas eles têm equipe. Eles têm coordenador. Eles têm processos. E por isso conseguem dar essas aulas sem que a escola pare de funcionar quando estão na sala.
A diferença é que eles escolheram dar aula. Não estão presos nisso.
E é exatamente essa a virada:
Sair de professor que tem uma escola para empresário que, se quiser, ainda dá uma aula ou duas.
Sua escola precisa de um gestor. E esse gestor, por enquanto, só pode ser você.
Até semana que vem!
Matheus Valin
Diretor da Emusys
P.S. Na próxima edição: tem uma métrica que pouquíssimas escolas acompanham (e que explica melhor do que qualquer outra se sua escola está saudável ou não). Vou te mostrar qual é.