Quando o professor leva seus alunos embora
Edição #053
Toda escola de música já passou por isso, ou teme que aconteça.
O professor avisa que vai sair. Às vezes nem avisa. E nos dias seguintes começam a chegar as mensagens de cancelamento. Um aluno, dois, cinco. Quase todos da turma dele.
Dói. E é uma das situações mais delicadas de lidar na gestão de uma escola.
Mas ficar desconfiado de professor, perder o sono com isso ou tentar controlar o que ele vai fazer não resolve.
Empreender é conviver com riscos. E esse é um dos riscos reais de quem tem uma escola de música.
O que você pode (e deve) fazer é reduzir bastante a chance disso acontecer. E as medidas para isso estão no seu controle, não no do professor.
Por que o professor sai
Na maioria das vezes não é por maldade.
Como professor particular, ele fica com um percentual maior do que recebe por aluno, sem dividir com a escola. E com uma carteira de alunos já formada, a conta parece fechar melhor.
O que ele muitas vezes não enxerga é tudo que a escola faz e que ele vai precisar fazer sozinho: atrair novos alunos, cuidar da cobrança, organizar a agenda, lidar com inadimplência, fazer reposição quando precisar faltar.
Hoje a escola cuida de tudo isso. E é fácil não perceber o valor disso enquanto está dentro.
O problema é que quando ele sai, ele leva o vínculo que construiu com os alunos. E o aluno, muitas vezes, segue o professor, não a escola.
O lado do aluno
A primeira linha de defesa não é segurar o professor. É fazer com que o aluno não queira ir junto.
E isso acontece quando o aluno tem uma relação com a escola, não só com o professor.
Algumas coisas que criam esse vínculo:
✔️ Metodologia consistente. Se o professor precisar faltar, outro assume e o aluno mal sente a diferença, porque o ensino tem uma lógica que não depende de uma só pessoa.
✔️ Eventos, recitais, apresentações. O aluno que já subiu num palco da sua escola tem memória afetiva com ela. Essas experiências criam um vínculo emocional que vai muito além da aula semanal. E dificilmente um professor particular consegue recriar isso.
✔️ Práticas de conjunto, corais, bandas. Quando o aluno toca com outros alunos, ele cria amizades. Essas amizades estão associadas à escola, não a um professor. Pertencer a algo coletivo é um dos maiores fatores de retenção que existem.
✔️ Comunidade. Uma escola que tem identidade, que se comunica, que celebra conquistas e cria senso de pertencimento é difícil de trocar. O aluno não cancela uma matrícula. Ele cancela algo que faz parte da vida dele.
Um professor particular dificilmente consegue entregar tudo isso. Você pode.
O lado do professor
A segunda linha de defesa é fazer com que o professor não queira sair.
E aqui vale ser honesto: o professor que se sente valorizado, reconhecido e que cresce junto com a escola não quer ir embora.
✔️ Tire o peso operacional dele. Sua escola cuida de marketing, vendas, cobrança, inadimplência, contratos, eventos. Ele só precisa entrar na sala e ensinar. Isso tem valor real. Vale tornar esse valor explícito de vez em quando, em vez de deixar como algo invisível que ele só vai descobrir quando sair.
✔️ Remuneração justa. Professor sem previsibilidade financeira busca alternativas. Pagar em dia, mesmo quando o aluno atrasa ou não comparece, faz uma diferença enorme na relação e na tranquilidade dele.
✔️ Bônus e incentivos. Reconheça quando ele retém alunos, quando um aluno evolui, quando ele contribui para o crescimento da escola. Não precisa ser sempre financeiro, mas precisa pelo menos ser notado.
✔️ Inclua nas decisões. Chame para reunião, peça opinião, mostre os números. O professor que entende que o crescimento da escola é o crescimento dele também veste a camisa de um jeito diferente.
✔️ Relacionamento. No fim das contas, pessoas ficam onde se sentem bem. Uma conversa regular, um feedback genuíno, um ambiente onde ele gosta de trabalhar vale mais do que qualquer contrato.
A escola que consegue fazer isso, criar vínculo com o aluno e cuidar do professor, raramente passa por esse problema.
E quando passa, dói menos.
Porque o aluno fica. E o professor que saiu logo percebe que a grama não era tão verde assim do outro lado.
Até semana que vem!
Matheus Valin
Diretor da Emusys
Gestão com Sétima
Toda semana, uma edição direto da realidade de quem gere uma escola de música. Histórias reais, decisões difíceis e aprendizados que você não encontra em outro lugar.