Aluno no palco é matrícula
Edição #058
Todo mês, fazemos um workshop exclusivo para escolas de música clientes da Emusys.
Semana passada, o convidado foi o Rafael Bastos.
Ele é sócio e fundador da Escola de Música Rafael Bastos, em Florianópolis. Uma escola com mais de 20 anos de história que hoje está com 450 alunos.
O tema central foi eventos com alunos. Não no sentido de “você deveria fazer”, porque isso a maioria das escolas já faz.
Mas no sentido de como estruturar um evento para ter o máximo de retorno, tanto em retenção e engajamento quanto em novas matrículas.
O que ele trouxe foi tão bom que tive que trazer aqui um resumo dos principais pontos.
Aluno no palco é matrícula.
Essa frase resume bem o que o Rafael defende, e comprova com a realidade da escola dele.
O impacto de um bom evento é duplo.
Do lado de dentro, o aluno que sobe num palco tem uma experiência que nenhuma aula individual sozinha consegue entregar.
Ele supera um medo. Realiza um sonho. Mostra para a família o que aprendeu. Cresce como pessoa.
Vive algo memorável associado à sua escola. Esse vínculo emocional é muito poderoso.
E o resultado prático é menos evasão, mais satisfação e um aluno que permanece por muito mais tempo.
Do lado de fora, a plateia vê. Pais, amigos e conhecidos saem de lá perguntando como se matriculam.
O show vira vitrine
Muito mais poderoso do que qualquer campanha de Instagram.
O Rafael trata os eventos não como fonte de receita direta, mas como investimento em experiência e em crescimento.
No modelo dele, a receita dos ingressos já cobre a estrutura: som, foto, vídeo, equipe técnica. Mas mesmo que não cobrisse integralmente, o retorno em matrículas e retenção justificaria.
Só que tudo isso tem uma condição: o evento precisa ser bom.
Uma apresentação longa, enfadonha, desorganizada ou sem energia não retém ninguém. E ainda pode manchar a imagem da escola.
O que separa um evento que gera muito resultado de um que só dá prejuízo está nos detalhes de como ele é estruturado.
Como a Escola de Música Rafael Bastos estrutura seus eventos
Durante o workshop, Rafael compartilhou bastante de como a escola conduz seus eventos e respondeu várias dúvidas de outros gestores e gestoras de escolas de música.
Quem paga, e quanto
Os alunos não pagam para participar. O evento é parte da experiência da escola.
Mas todos que vão assistir pagam ingresso: pais, familiares, amigos. A receita cobre toda a estrutura.
Além de custear o show, o ingresso posiciona o evento como algo especial. Evento gratuito parece passeio. Evento com ingresso parece show.
O retorno financeiro real, de qualquer forma, não vem do ingresso. Vem das matrículas que aparecem depois.
O local
Auditório funciona, mas bares, cervejarias e casas de show criam uma experiência completamente diferente.
O aluno sente que está tocando de verdade. A plateia sai com outra memória. O evento tem outra energia.
Para conseguir esses espaços, o Rafael construiu relacionamentos com os donos.
O argumento é direto: um evento de escola de música lota a casa num dia que talvez ficasse vazio, traz dezenas de pessoas que consomem, e apresenta o local para um público novo.
Ele teve evento em que o estabelecimento esgotou as bebidas porque os donos não se prepararam para o volume. Isso virou um ótimo argumento para parcerias futuras.
Um detalhe importante: o formato precisa ter coerência com o que o aluno estuda.
Show de banda em casa de show faz sentido. Sarau de canto num espaço menor e intimista, também. Recital de piano em auditório, idem.
Forçar um formato que não casa com o repertório ou com o público da turma quebra a experiência, por melhor que seja o local.
Como as bandas são formadas e treinadas
O trabalho que garante um bom show começa muito antes do dia do evento.
Na hora de montar os grupos, o Rafael tem um processo próprio: em vez de designar os alunos diretamente, ele reúne cerca de 10 alunos num mesmo horário e observa.
Quem toca bem junto, quem tem mais afinidade, quem combina com quem. Dali saem duas bandas com uma química que já existia na prática.
O repertório é definido pela escola, não pelo aluno. Cada integrante da banda recebe o material completo: play-alongs, mapa da música com cada nota, compasso, pausas, solos. Tudo organizado e padronizado.
Isso garante que qualquer aluno, independente do nível, consiga acompanhar e evoluir dentro do repertório proposto.
Os professores das aulas individuais fazem parte do processo. Eles já vão trabalhando as músicas do repertório nas aulas regulares, antes mesmo dos ensaios em banda começarem.
Quando o aluno chega para o primeiro ensaio, já conhece o material.
Duração
Com 450 alunos, tentar acomodar todo mundo num único evento é caminho certo para um show longo e cansativo.
A solução são múltiplos shows no mesmo dia ou até em dias diferentes, mas com no máximo uma hora e meia cada.
Isso pode até dividir a plateia, mas um evento curto e energizado vale muito mais.
A regra de ouro: o público precisa sair querendo mais tanto quanto o aluno.
Quem sobe no palco
Todos os alunos, independente da idade. A escola tem projetos específicos para o público infantil a partir dos 6 anos.
As histórias que surgem nesses projetos (a criança que mal falava em público e foi aplaudida de pé) viram prova social poderosa depois.
O que fazer depois
O evento acontece em um dia, mas o trabalho de aproveitar aquele momento para atrair matrículas pode durar meses.
A escola registra tudo e usa histórias reais: o adulto que realizou um sonho tocando no palco, a criança que superou a timidez, o adolescente que ficou mais confiante.
Essas histórias, compartilhadas no palco, nas redes e pelo boca a boca, atraem pessoas que se identificam. E que entram na escola com uma motivação diferente de quem veio só por curiosidade.
Vale lembrar algo que o Rafael deixou claro logo no início do workshop: nada do que ele trouxe é regra.
É o que funciona para a escola dele, com a realidade dela.
Outras escolas operam de formas completamente diferentes e vão muito bem. O objetivo foi só abrir o jogo sobre o que ele faz, e deixar cada um adaptar ao que faz sentido na sua.
Até semana que vem,
Matheus Valin
Diretor da Emusys
Gestão com Sétima
Toda semana, uma edição direto da realidade de quem gere uma escola de música. Histórias reais, decisões difíceis e aprendizados que você não encontra em outro lugar.